TUTORIAL · Terceiro Setor

Como abrir ONG no Brasil: estatuto ao CNPJ passo a passo

Abra uma ONG legalmente em poucos passos. Do estatuto ao CNPJ, saiba exatamente que documentos reunir, quanto custa e como evitar erros que bloqueiam editais.

RMRuan Malique · Fundador do CapitaaiAtualizado em 16 de maio de 20269 min de leitura

Abrir uma ONG é mais simples do que parece, desde que você siga a sequência certa. Neste guia, você vai do estatuto ao CNPJ em passos concretos, sem burocracia desnecessária.

Antes de começar, o que você precisa

Não é preciso ser advogado. Não precisa contratar consultoria cara. O que você precisa é documentação clara e paciência para preencher formulários.

Tenha à mão:

  • CPF de todos os fundadores (mínimo 2 pessoas naturais)
  • Comprovante de endereço da sede (conta de luz, água, ou contrato de aluguel)
  • Estatuto social (vamos detalhar como escrever isso)
  • Ata de fundação (registra a criação da ONG e a eleição da primeira diretoria)
  • Documentos de identidade (RG ou CNH dos fundadores)
  • Acesso à plataforma do Cartório Digital (alguns estados já oferecem)

Você não precisa abrir conta bancária antes. Mas vai precisar para receber edital de financiamento ou patrocínio depois. Bancos públicos (Caixa, Banco do Brasil) costumam ter linhas específicas para OSC, organização da sociedade civil.

Aqui mora ouro pra quem quer captar depois: muitos bancos exigem CNPJ com pelo menos 6 meses de atividade registrada para liberar conta e acesso a editais.

O Capitaai monitora 218 editais ativos hoje. A maioria exige que a ONG esteja regularizada há mínimo 2-3 anos. Começar agora significa estar pronto para os editais de 2028-2029.

Passo a passo completo

  1. Reúna os fundadores e escolha o objeto social

    A ONG precisa de um propósito claro. Educação? Saúde? Cultura? Assistência social? Pesquisa? Defesa de direitos? Esse propósito define tudo depois, editais que você pode acessar, que tipo de incentivo fiscal consegue, qual ministério vai fiscalizar você.

    Isso não é escolha reversível, mas é flexível. Uma ONG criada para educação pode depois adicionar ação em assistência social. Mas o estatuto inicial vai trazer essa marca.

    Dica: Olhe os 218 editais ativos da nossa base e veja qual nicho tem mais oportunidade. Seu objeto social deve estar alinhado com o que os financiadores estão procurando.

  2. Escreva o estatuto social

    O estatuto é a constituição da ONG. Define missão, valores, estrutura de governança, direitos e deveres dos associados, como funciona a assembleia geral, quem compõe a diretoria.

    Não precisa ser complicado. Um estatuto de ONG pequena cabe em 5-8 páginas. Usar template de ONG similar já existente é legal, adapte pra sua realidade.

    Pontos que NUNCA podem faltar:

    • Nome completo da entidade
    • Objetivo social (descreva como ATIVIDADES, não só intenção vaga)
    • Sede e foro (onde fica e qual estado vai processar se houver ação legal)
    • Patrimônio inicial (pode ser simbólico, ex: R$ 1)
    • Como entra e sai associado
    • Composição da diretoria (presidente, vice, tesoureiro, etc)
    • Mandato e como elege diretor
    • Como funciona a assembleia geral (quórum, votação)
    • Destinação de patrimônio em caso de dissolução

    Editais federais (especialmente na Lei Rouanet e SUAS) costumam conferir o estatuto linha por linha. Se o seu não deixar claro quem pode tomar decisão em assembleia, a aprovação demora ou nega. Confira os requisitos da Lei Rouanet no portal oficial antes de finalizar seu texto.

    Cuidado: Estatuto que parece copiado de ONG grande demais não vai funcionar pra uma pequena. Financiador desconfia de excesso de formalismo num projeto de 50 pessoas.

  3. Agende registratário e registre o estatuto em cartório

    Procure um cartório de registro de pessoas jurídicas (não é cartório de imóveis). Leve o estatuto assinado pelos fundadores, seus documentos de identidade, CPF e comprovante de endereço.

    O cartório vai gerar um registro de estatuto. Isso custa entre R$ 200 e R$ 800 dependendo do estado. Alguns cartórios digitalizados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais) já permitem protocolo online.

    Você recebe um certificado registral. Guarde esse documento, é prova de que a ONG existe legalmente.

    Dica: Faça já uma cópia eletrônica do certificado registral. Muitos editais pedem isso por upload em PDF.

  4. Convoque assembleia geral e eleja a primeira diretoria

    Reunião dos fundadores (presencialmente ou ata registrada). Ata registra: quem está presente, objetivo, resultado de votação para eleição de presidente, vice, tesoureiro, conselheiro (se houver).

    A ata não precisa ir ao cartório de novo. Mas guarde original ou cópia autenticada, edital pode pedir comprovação de quem é diretor.

    Essa ata é baseada no estatuto. Se o estatuto diz "assembleia com 2 fundadores é quórum válido", então 2 assinaturas bastam. Se diz "maioria dos fundadores", precisa de mais gente.

  5. Reúna documentação pra requerer CNPJ

    Acesse a plataforma de inscrição da Receita Federal (gov.br) ou procure uma empresa de contabilidade especializada em terceiro setor.

    Documentos necessários:

    • Certificado registral de estatuto (do cartório)
    • Cópia autenticada da ata de fundação
    • CPF de todos os fundadores
    • RG ou CNH de pelo menos um fundador
    • Comprovante de endereço da sede
    • Formulário de solicitação de CNPJ (RFB 2157)

    Se for fazer online, a Receita libera inscrição em 24-48h. Você já consegue número de CNPJ provisório pra começar a funcionar.

    Importante: Antes de pedir CNPJ, confira se sua categoria de ONG enquadra-se em OSCIP ou OSC comum. Isso muda a documentação pra edital depois. Não afeta CNPJ, mas afeta elegibilidade de captação. Consulte a orientação do Ministério da Cidadania para tirar dúvidas.

  6. Registre a ONG na Secretaria de Justiça do seu estado

    Esse passo é específico pra OSC, organização da sociedade civil. Não é obrigatório em alguns estados, mas é recomendado porque abre acesso a editais estaduais e convênios com governo.

    Procure a Secretaria de Justiça (ou equivalente) do seu estado. Leve CNPJ, estatuto e ata de fundação. Registro custa entre R$ 100 e R$ 500.

    Esse registro gera um número de inscrição estadual, importante para alguns editais e subvenções estaduais.

  7. Configure base de dados e governance inicial

    Abra planilha simples com: sócios/associados, seus dados (CPF, endereço), data de adesão. Faça ata de posse da diretoria assinada (prova de quem tá no comando). Configure e-mail institucional mesmo que informal.

    Isso parece simples, mas muitos editais do SUAS, Subvenção Social, pedem relatório de associados e ata de diretoria. Se você não tiver isso organizado, aprovação demora semanas.

Os erros que arruínam o resultado

  1. Estatuto vago ou genérico demais

    Erro: "A ONG atua em defesa de direitos humanos." Certo: "A ONG promove oficinas de capacitação em direitos trabalhistas em bairros de baixa renda, oferecendo orientação jurídica gratuita a migrantes e trabalhadores informais, com foco em documentação e acesso a benefícios sociais." O segundo define atividades concretas. Edital vai verificar se sua atividade descrita combina com projeto que você tá submetendo.

  2. Fundação com só uma pessoa

    Lei exige MÍNIMO 2 pessoas naturais. Algumas ONGs burlam isso colocando genro na ata e desaparecendo depois. Edital descobre, nega aprovação, bloqueia edital futuro.

  3. Não autenticar documentos em cartório

    Cópia de ata assinada em casa vale pra governança interna. Mas edital, convênio e banco pedem cópia autenticada em cartório (custam R$ 20-50 cada). Deixa pra depois e você fica bloqueado quando chegar uma oportunidade.

  4. Confundir OSC com OSCIP

    OSC (organização da sociedade civil) é categoria ampla. OSCIP (organização de sociedade civil de interesse público) é um enquadramento específico que exige documentação extra e dá direitos fiscais diferentes. Muitos editais aceitam só um tipo. Descobrir errado na hora da inscrição significa rejeição.

  5. Não registrar na Secretaria de Justiça estadual

    Isso fecha porta pra editais estaduais, convênios e subvenção (SUAS). Seu CNPJ é válido federalmente, mas você fica invisível pro governo estadual.

Dicas avançadas que poucos fazem

Já se registre como OSCIP se puder

OSCIP exige documentação um pouco mais pesada (conselho fiscal, demonstração de funcionamento há mínimo 3 anos), mas abre acesso a editais federais de maior valor e subvenção direta (você recebe R$ do governo sem concorrer em edital).

Se sua ONG vai de verdade, considere fazer OSCIP assim que completar 3 anos. Não precisa ser OSCIP pra começar, mas prepare o caminho.

Escolha bem a Secretaria de Justiça do seu estado

O registro estadual varia. Alguns estados têm plataforma digital, outros exigem presença. Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia têm processos mais ágeis. Estados menores podem levar 2-3 meses. Pesquise o seu antes.

Estruture financeiro desde dia 1

Abra conta bancária assim que tiver CNPJ. Escolha banco que trabalhe com OSC (Caixa, Banco do Brasil, Itaú, Bradesco têm linhas específicas). Isso prova movimento financeiro legítimo pra edital depois.

Captação sem ferramenta é igual procurar agulha em palheiro com olhos vendados.

A maioria das ONGs que criam conta muito depois fica sem histórico bancário pra comprovar em edital federal. Financiador quer ver fluxo de caixa consistente, receitas documentadas. Isso leva tempo.

Monitore editais desde o começo

Não espere estar 100% estruturado pra começar a acompanhar oportunidades. Confira editais abertos para seu nicho, educação, saúde, cultura, assistência social. Veja que documentação pedem, quanto financiam, qual é o perfil de ONG que ganha.

Top 3 financiadores ativos em 2026: Observatório 3º Setor (23 editais), Fundação Cultural Cassiano Ricardo (16 editais), FAPESC (9 editais). Se seu nicho se sobrepõe com algum desses, você já sabe pra onde mirar.

Comece a ler termos de referência agora. Seu estatuto pode ser ajustado enquanto tiver menos de 2-3 anos. Depois fica mais difícil.

O que fazer depois

Depois do CNPJ em mãos, você tem 3 caminhos concretos:

1. Configure gestão básica

Abra arquivo organizado com: estatuto, atas, CNPJ, registro estadual, contatos de diretoria, comprovante bancário. Isso que você vai precisar pra cada edital. Economiza horas depois.

2. Procure edital alinhado com seu objeto social

Não escolha edital porque tem muito dinheiro. Escolha porque sua ONG tá preparada pra entregar aquele resultado. Falta de alinhamento é motivo número 1 de negação em captação.

Confira quais editais tão abertos pro seu perfil → Vê os editais ativos agora e filtra por nicho (cultura, saúde, educação, assistência social).

3. Estruture projeto piloto

Seu primeiro edital vai pedir resultado comprovável. Comece com escala pequena, 50 pessoas, 5 localidades, 6 meses. Isso é mais fácil de aprovar e de entregar. Depois você escala.

Edital grande demanda equipe grande. Você tem equipe?

Documentação Quando usar Cópia autenticada? Prazo de validade
Certificado registral (estatuto) Edital, convênio, CNPJ Sim Indefinido
Ata de fundação Edital, banco Sim (quando possível) Indefinido
Comprovante de CNPJ Banco, edital, contrato Não (original digital) Indefinido
Registro estadual Edital estadual, subvenção SUAS Sim Indefinido (renova a cada alteração)

Depois que sua ONG tá funcionando 6-12 meses com movimento financeiro, você fica elegível pra maioria dos editais. A partir de 3 anos, OSCIP é factível.

Muitos gestores acham que só conseguem captar depois que estão perfeitos. Não é verdade. Você começa a captar quando tem ideia clara, documentação organizada e equipe que entrega.

Tá esperando o quê?

Próximo passo: Cadastre sua ONG na plataforma, Receber alertas de novos editais que combinam com seu nicho. A maioria dos captadores que ganham edital não foi por acaso. Foi porque acompanharam oportunidades antes de todos.

Fontes consultadas

  1. [1]Receita Federal - Inscrição de CNPJ para Organizações da Sociedade Civil
  2. [2]Lei Rouanet - Requisitos de Estatuto para Captação
  3. [3]Ministério da Cidadania - Perguntas Frequentes sobre Terceiro Setor
  4. [4]Plataforma de Monitoramento de Editais para OSC
C
Capitaai
Plataforma de captação de recursos

O Capitaai monitora 270+ fontes oficiais de financiamento (federal, estadual, municipal, internacional) e ajuda captadores a escrever projetos baseados em casos reais aprovados. Nossa base tem editais ativos atualizados diariamente. Garantir o passe e acessar os editais →

Perguntas frequentes

Dúvidas mais comuns de captadores sobre este edital.

O custo varia entre R$ 320 e R$ 1.800, dependendo do estado. Registro de estatuto em cartório custa R$ 200 a R$ 800. Registro na Secretaria de Justiça estadual custa R$ 100 a R$ 500. CNPJ é gratuito pela Receita Federal. Se contratar contabilidade especializada, adicione R$ 500 a R$ 1.500 iniciais. Não é obrigatório contratar - você pode fazer sozinho seguindo este guia.

Outros guias do mesmo tema.